Onélia deixou silêncio e saudade

Numa região conhecida como Andreza, na cidade do Beberibe, interior do Ceará, Onélia Maria constituiu sua família ainda menina. Aos 13 anos, sem ter brincado com bonecas, fugiu de uma casa lotada de irmãos, tinha 12, para se juntar a Antonio e tomar conta do seu próprio lar. A falta de experiência com as bebês de brinquedo foi substituída pelos cuidados reais das nove crias que vieram. Às vezes, ano após ano.
 
Um dos garotos morreu. Oito vingaram. Cedo, os meninos ajudavam o pai na labuta e na lida com os animais. As meninas aprendiam a arte de equilibrar uma bacia cheia de roupas na cabeça para lavar no rio, além do ofício no labirinto, trabalho artesanal das chefes de família. E todos tomavam conta uns dos outros. Todos, homens e mulheres, iam para roça.

Tinham cavalos e as solas dos pés calejados como meios de transporte; o mato como banheiro; as folhas como papel higiênico; a orquestra musical dos sapos, grilos e demais como companhias noturnas; o vozeirão pontual do galo como despertador; a lamparina a querosene como luz; a água das cacimbas como fonte principal; o rio como diversão e um céu estrelado de fazer inveja a qualquer metrópole como confidente.
 
Seis filhos passaram temporadas em São Paulo. Apenas dois fincaram os pés de vez. Trouxeram o pouco estudo e a raça surgida na infância para reforçar a mão de obra dos serviços braçais de que tanto a cidade carece. Progrediram. Estavam longe do interior nordestino, mas no centro das orações diárias da mãe. Ela nunca se imaginou migrando para um lugar tão diferente. Onélia não conseguia imaginar como seria ficar dentro de um objeto que passava por perto das nuvens, tão longínquas. Não tinha essa coragem.
 
A energia elétrica chegou à esquecida Andreza. A água encanada ainda não. A vida melhorou. Alguns filhos casaram. Os netos chegaram. E até mesmo um bisneto. A mãe foi morar em uma casa ao seu lado, após a morte do pai. Adorava levar o mingau para a matriarca da família Arruda.

Onélia tinha olhos miúdos, pele queimada, cabelo negro e liso, postura espigada, orelhas grandes e atentas. Seu pouco aprendizado escolar não condizia com sua boa comunicação. Pelo contrário. Falava bem, com todos, opinava e se fazia entender por sua voz alta, limpa, convicta. Era pequena para o alcance não só da sua voz forte, como para a da sua alegria contagiante.
 
No ano passado, após penar muito em busca de solução para dores estranhas, descobriu-se com um câncer, enfermidade cujo nome não era bom nem ser pronunciado. Mas bem conhecido entre os Arrudas. Um mal que levou seu pai, seu irmão e agora mutilou um seio da sua mãe. A baixinha arretada tinha muita garra para combater a doença. Contudo, a falta de recursos e demora em um diagnóstico preciso lhe deixaram em condições desfavoráveis nessa luta injusta.

Para chegar ao hospital enfrentava o sacolejo da ambulância por mais de três horas de viagem. Detalhe: o transporte precisava ser agendado no dia anterior. Onélia passou por quatro cirurgias, sem fraquejar. Passou meses internada na capital. E foi rasgada pela doença. Durante o tratamento, sangrava e suas necessidades fisiológicas misturadas a pedaços da sua essência vertiam até pela sua vagina. O brilho dos seus olhos se esvaía aos poucos.
 
O sofrimento durou períodos que se transformaram em eternidades. Na última vez aberta, os médicos anunciaram aos seus que “tinham feito tudo que estava ao seu alcance”. Sentença cruel. Dolorosa. E Onélia pediu pra voltar pra casa.
 
Dias e noites passavam com ela se retorcendo na cama. Tinha uma bolsa acoplada em seu tronco para armazenar suas necessidades. Com a voz já quase inaudível, pedia água gelada para acalmar a queimação interna que a consumia. Perdeu o movimento das pernas e a vela foi colocada três vezes em sua mão, luz para acompanhá-la pelo novo caminho a percorrer, um costume local. Apagava de vez quando. Falava cada vez menos e a aflição em suas expressões causava a maior das impotências para quem estava por perto.
 
Muitas eternidades depois, os olhos fixaram, abertos, e as lágrimas rolaram. Sangrou. Agonizou até o seu coração parar de pelejar… e descansou.

 * 10.3.1956 / + 5.7.2011

Homenagem do seu sobrinho

Creber

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2 respostas para Onélia deixou silêncio e saudade

  1. Cristiano disse:

    Muito bom!!

  2. Drica disse:

    É… Ela com certeza sabia deste amor e carinho. Força!

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